quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mistério sob a Lua



Era ainda outono e ela caminhava pela relva coberta pelas folhas secas, às vezes abaixava-se para pegá-las distraidamente dissolvendo-as em suas frágeis mãos, sentindo a rispidez árida como se aquela aspereza pudesse aos poucos confundir-se com a dor mais profunda que fluía em seu coração. Já era o outono e ainda estava sozinha... ele não chegara.
Estela mantinha-se fiel... frágil era a promessa, mas nada tinha de frágil o amor que sentia em seu coração. Vira-o em uma noite estranha, cavalgava nas redondezas, próximo de sua casa. Não compreendia como somente ela o escutara, já que moravam no campo e seu pai sempre fora atento a possíveis invasores.
Naquela noite misteriosamente o calor incomodava seu coração, acordou banhada nos lençóis e encantou-se com a lua que refletia o nu de sua pele em meio às cobertas convidando-a a um passeio no frescor da noite. Sem hesitar saiu para a brisa noturna sentindo com prazer o frescor inundar-lhe. Caminhou lentamente olhando as estrelas e sentou-se embaixo de um florido Ipê. Distraída sobressaltou-se ao ouvir muito próximos de si alguns firmes passos.
- Quem está aí?
E foi então que pela primeira vez ela o viu... aqueles olhos.
Estava de botas, camisa escura, manchada sob o rústico casaco, mas o que realmente ela viu foram aqueles olhos azuis a brilharem sob o chapéu.
- Estela.
- Sim...
- Me espera.
- Mas...
Ele desapareceu na escuridão.
Desde então tudo a tem transtornado! Não era um sonho, ela sabia que não! Quem era ele que a conhecia? Algum mago? Ou fantasma?
Não! Aqueles olhos eram reais!
Tentou conversar com algumas pessoas da redondeza, mas ninguém naquela noite havia visto um homem de longos cabelos negros e olhos azuis cavalgar sozinho pela região. O mais misterioso é que, naquela noite, exceto seu pai, a maioria dos moradores próximos ficaram acordados até a madrugada a festejarem, pois comemoravam a festa de Nossa Senhora da Conceição.
Estela não compreendia, jamais o tinha visto antes, mas sabia que o conhecia. Sabia como seria sua vida com ele antes mesmo de ouvi-lo, foram aqueles olhos... aqueles olhos foram sem dúvida a sua salvação.
A donzela continuava seus afazeres, mas sempre lhe pregava a distração. Passou a ficar mais recolhida e por vezes se encontrava sob as flores a olhar a clareira onde ele aparecera.
Esperar até quando? Por que não vem?
Não conseguia afastar-se dali, seus pais um dia faleceram, seus irmãos foram à cidade levar à escola os filhos que cresceram e ela continuava a esperar ali.
Seu consolo era aquela Lua que com ela aquele dia o vira e estava sempre ali dele a lembrá-la.
Infinitos outonos sozinha passara. Mais um ano a primavera chegou, desta vez trouxera visitas ilustres a sua ampla casa.
- Boa- noite, senhorita!
- Boa-noite, Senhor. Já nos avisaram que virias pernoitar aqui, por tua família conhecer o meu querido pai, sente como se fosse o teu próprio lar.
- Muito agradecido, posso sentar-me aqui? E desejo um pouco de vinho para minhas forças revigorar se não fores de mim mau juízo fazer.
- Claro que não, senhor. Há um vinho guardado de meu pai, especial para uma ocasião que pouco soube por que não o bebeu.
- Este vinho foi meu pai quem mandou naquela noite fatídica que o desastre sucedeu.
- Desastre? Não me recordo de nenhum desastre saber.
- Teu pai por certo não te contou, era uma quente noite de lua cheia e vinha o meu pai ao teu o compromisso de casório oferecer. Tua mão seria pedida ao mais belo moço que por este mundo viveu.
- Minha mão? Não sei de nada não!
- Tu nem soubeste, pobre donzela, porque naquela noite uma bala perdida o teu belo noivo abateu.
- Meu pai de tudo sabia então?
-  Só conhecia teu pai do amigo  o desejo da mão do filho mais velho oferecer.
- E..esse...f..filho...m..meu...p..pai o conheceu?
- Não, doce menina, morreu antes de seus olhos o ver.
- P...podes... d..dizer.. c..como era o noivo que meus braços não envolveu?
- Era belo e misterioso feito a noite... longos cabelos negros que por vezes o chapéu escondeu, mas era pelos olhos... aqueles olhos da cor do céu que quem uma vez viu, jamais, jamais os esqueceu.


  
  Texto de Della Coelho

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